1 O homem que só tinha certezas quase nunca usavaponto de interrogação. Em seu vocabulário, não constavam asexpressões: talvez, quiçá, quem sabe, porventura.4 Parece que foi de nascença. Ele já teria vindo aomundo assim, com todas as certezas junto, pulou a fase dosporquês e nunca soube o que era curiosidade na vida. Cresceu7 achando natural viver derramando afirmações pela boca. A notícia espalhou-se rapidamente. Não demoroumuito para se tornar capa de todas as revistas e personagem10 assíduo dos programas de TV. Para cada pergunta havia umasó resposta certa e era essa que ele dava, invariavelmente,exterminando aos pouquinhos todas as dúvidas que existiam,13 até que só restou uma dúvida no mundo: será que ele não vaierrar nunca? Mas ele nunca errava, e já nem havia mais o queerrar, uma vez que não havia mais dúvidas.16 Um dia aconteceu um imprevisto, e o homem que sótinha certezas, quem diria, acordou apaixonado. Para seassegurar de que aquela era a mulher certa para ele, formulou19 cento e vinte perguntas, as quais ela respondeu sem vacilar. Osdois se amaram noites adentro, foram a Barcelona, tiraramfotos juntos, compraram álbuns, porta-retratos... Desde então,22 por alguma razão desconhecida, o homem que só tinha certezasfoi perdendo todas elas, uma por uma. No início ainda tentoudisfarçar. Mas as dúvidas multiplicavam-se como praga,25 espalhavam-se pelo mundo, e agora, meu Deus? Deus existe?Existe sim. Ou será que não? Ele não estava bem certo.Adriana Falcão. O homem que só tinha certezas. In: O doido da garrafa.São Paulo: Planeta do Brasil, 2003, p. 75 (com adaptações).Julgue os itens seguintes, referentes aos aspectos linguísticos e às ideias do texto O homem que só tinha certezas. Infere-se do trecho “derramando afirmações pela boca” (l.7) que o homem que só tinha certezas falava demasiadamente.