1 A história dos ideais ilustrados na América Latina tem, às vezes, um sabor quase trágico de perversão dos intuitos ostensivos, porque acabaram funcionando como4 fatores de exclusão, não de incorporação; de sujeição, não de liberdade. O saber como salvação acabava como teoria de poucos eleitos. Na América Latina, as condições locais7 puseram a nu a contradição fundamental da ideologia ilustrada, que desaguava quase inevitavelmente na delegação de função às elites. O propalado bem comum ficava no limbo10da utopia se os povos não lutassem pela sua realização. Nos países do Ocidente da Europa, as lutas democráticas do fim do século XVIII e século XIX, aliadas à prosperidade13econômica, permitiram uma solução parcial da contradição apontada acima, com relativa difusão do saber. Em nossos países, a contradição permaneceu com toda força. Essa16contradição se manifesta de vários modos e em vários níveis. No nível estrutural, é óbvio que ela corresponde a uma tendência das sociedades de classe para concentrar o saber19nas camadas superiores, dosando as suas formas mais modestas ao longo da escala social dominada. No nível escolar, ela aparece tanto na política universitária quanto na22política de instrução primária. No caso do Brasil, é curiosa, depois da Independência, a relativa indiferença pela fundação de escolas superiores, além do mínimo para formar25quadros dirigentes restritos. Custa crer que o Brasil só tenha tido universidades no século XX; e que, durante o período colonial, não houvesse nele escolas de nível superior.Antonio Candido. A perversão da Aufklärung. In: Textos de intervenção.34.ª ed., São Paulo: Duas Cidades, 2002, p. 321-3 (com adaptações).Acerca das ideias e estruturas linguísticas do texto acima, julgue os itens a seguir. Ao restringir às elites locais o acesso ao saber, a América Latina perverteu os ideais ilustrados plenamente realizados na Europa pela difusão igualitária do saber.